quarta-feira, 14 de outubro de 2015

ORIGEM DE IPOJUCA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

                   Tratar sobre origens não é tarefa fácil, pois dessa questão emergem várias outras ao ponto de determinados estudiosos defenderem a não existência de uma origem unitária, uma vez que a ideia circunda em torno das relações de poder que a construíram e não meramente de uma gênesis em si própria (MACHADO, 1981). Isso se deve ao fato de que quando tratamos acerca das origens de um povo acabamos por ser orientados a buscar um ponto, todavia a formação de uma sociedade é produto de diversos fatores de ordem histórica, cultural, religiosa, econômica, etc. (OLIVEIRA, 2006).
                   Nos voltando a comunidade em questão, a cidade de Ipojuca, muitos alertam para o fato de a história de Ipojuca ter começado ainda no período colonial, sendo esta portanto uma das cidades mais antigas do Brasil (RÖWER, 1947). Os relatos mais antigos que se tem acerca da cidade de Ipojuca data de antes de 1560, quando Duarte Coelho donatário da Capitania de Pernambuco lutou contra a expulsão dos Caetés e fez doações de terras a várias famílias ligadas a nobreza portuguesa. Essas terras eram lotes chamados de Sesmarias e foram doadas a várias famílias, sendo que nos registros até então encontrados são citadas as famílias, Cavalcanti, Rolin, Lacerda e Acioli, além de outras. (BARBOSA, ARRUDA E ALMEIDA, 2007).                                                               
                Com essas posses os novos proprietários poderiam explorar a terra e quem nela morasse, extraindo o que havia de riqueza na região. Portanto, no primeiro momento, as terras de Ipojuca valeram muito para os portugueses, no chamado primeiro ciclo econômico brasileiro, pois a extração do pau-brasil foi de grande valia para a coroa portuguesa na época.
                   O primeiro engenho do qual temos notícia é o Engenho Tabatinga, localizado próximo ao rio Tabatinga que separa Ipojuca do Cabo de Santo Agostinho. Esse engenho é citado e um documento de inquisição assinado por Heitor Furtado em 1594 e seu nome pela primeira vez aparece como “Pojuca da Freguesia de São Miguel” (FURTADO, 1594) com data do ano de 1984. Além disso documentos da época citam a existência de outros engenhos na região, (IHAGPE, 1956) portanto é possível que outra comunidade monocultora da época tenha se formado antes desta.
                   A história da cidade de Ipojuca, hoje sede do município, juntamente com os outros dois distritos de Camela e Nossa Senhora do Ó, serão explorados em um outro momento. Aqui circunda uma grande questão que vale a pena discuti-la, e creio que neste texto não será possível cessar esse debate, mais será uma ferramenta para incitar a análise. Qual a origem de Ipojuca? Para muitos Ipojuca tem sua origem a partir da chegada dos europeus que receberam as doações das sesmarias advindas das mãos de Duarte Coelho.
                   Porém, defendemos que Ipojuca tem suas raízes, em primeiro plano, nos povos indígenas que habitavam a região. Seu próprio nome, Ipojuca, (do Tupi-guarani sugere que seu significado é pântano, água escura, estagnada) é de origem indígena (FONSECA, 2013) e assim seguem outros nomes da terra como: Maracaípe, Gamboa, Cupé, Caetés. Logo, a própria antiguidade do nome nos remete a ideia de que não foram os portugueses que nomearam essa terra e sim os nativos que nela habitavam e que tinham grande ligação com a terra na qual viviam.
                   Além de fatores importantes como esses temos notícias documentais mais antigas do litoral ipojucano, em mapa do ano de 1542, Hans Staden, mercenário alemão que esteve por duas vezes no Brasil registrou o Porto de Galinhas, chamando-o de Rio das Galinhas, fator que demonstra que nessa época o Porto já era utilizado como espaço de atracamento de navios. Outra localidade que tem registros bastante antigos é Maracaípe que também foi um importante porto nesse período.
                   Quando afirmamos que os Caetés tinham grande ligação com a terra nativa, refiro-me ao fato das grandes batalhas travadas entre os nativos que aqui habitavam, Caetés e os portugueses com o apoio do donatário de Pernambuco Duarte Coelho. Dentre diversas afirmações grotescas que são tratadas acerca dos caetés que habitavam essa região, como comedores de gente¹, traiçoeiros, incivilizados, etc.(PROENÇA, 1944). Cito porém uma afirmação que acho de importante valia para a análise de suas influências nessa terra. Em seu livro Moacyr Pereira (1985) cita algo positivo acerca dos nativos caetés, afirma ele que eram habilidosos músicos e pescadores.                                                                 Quando observamos a sociedade atual das regiões litorâneas de Ipojuca, vemos o quanto os índios caetés influenciaram nossa terra, é possível identificar a marca forte de pescadores que existem nessas regiões, bem como os métodos mais tradicionais de pesca que pode existir como o jereré, o puçá, o covo, o jiquí, a rede, a tarrafa, o anzol que inclusive é citado em antigos documentos. O uso do samburá, por exemplo, demonstra uma clara relação com povos nativos de outras áreas do Brasil que utilizam ferramentas parecidas.                     
                   Portanto nos vem a mente questões como, onde isso foi aprendido? Quem nos ensinou esses métodos? Os portugueses? Holandeses? Alemães? Fanceses? Não, os nativos ipojucanos acumularam e passaram adiante esses conhecimentos a partir das gerações posteriores que habitaram essa região.
                   Vale ressaltar que as intensas lutas para se manter no território ipojucano por parte desses povos demonstrava o quanto eles sentiam-se pertencentes a ela e o quanto não queriam abrir mão do que era seu. Temos, portanto, uma visão que não apaga as características expostas pelos portugueses sobre esses índios, porém, vai além da imagem de “povos bárbaros” e “selvagens” indiscriminados como buscaram passar naquele momento.                                                                                                  Vale ainda ressaltar que os Caetés não foram totalmente exterminados por Duarte Coelho, registros antigos dão conta de que vários Caetés sobreviveram, documentos dos jesuítas atestam a dificuldade que havia na catequização desses índios já após a morte do primeiro donatário da Capitania de Pernambuco.


Um comentário:

  1. Caríssimo amigo. Realmente Ipojuca é uma das cidades mais antigas de Pernambuco. Discordo quando algumas datas citadas e alguns fatos. Como aceitar a data de 1560 se só em 1569 iniciou o desbravamento ente o Cabo de Santo Agostinho e Sirinhaém prolongando-se até 1571? Período este em que iniciaram os primeiros engenhos litorâneos ao sul do Cabo de Santo Agostinho. Jerônimo de Albuquerque foi quem fez a primeira incursão portuguesa mas sem sucesso. Em 07 de agosto de 1554,O primeiro donatário de Pernambuco morre enquanto seu filho mais velho Duarte Coelho de Albuquerque está com seu irmão Jorge Coelho de Albuquerque estão no Reino e em 1560 retornam a Pernambuco para assumir o comando da Capitania e foi seu irmão Jorge que seria o terceiro donatário, o responsável por expulsar os índios Caetés do litoral especialmente do litoral Ipojucano porque nesta época não havia somente a nação Caeté em nosso litoral. Com relação a sesmarias a lei de doação vai de encontro a tese de que algumas famílias fundaram Ipojuca. Antes porém o início do Ipojuca é envolto em nada de concreto. O único maia antigo documento é o que foi citado por você Denunciacoes de Pernambuco em 1594. Frei Jaboatão cita não os fundadores é sim povoadores não só os descendentes das famílias citadas como outras e deixa bem explícito: DIZ A TRADIÇÃO.Com relação a Hans Staden, tenho em minha biblioteca a edição de 1900 editado pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.Ele foi terminado pelo próprio Staden em 25dejulho de 1556 e editado um ano após em Marburg,Hessen, Alemanha. Depois continuo. É bom irmos a busca de edições mais antigas. Apenas um conselho. Agradeço vc ter escrito sobre minha Querida Ipojuca.

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